Mesa de transmissão da ESL em Belo Horizonte

Narradores veem profissão em queda no CS e apontam soluções para o futuro

Trio de casters conversou com a reportagem sobre as dificuldades encontradas na área

As watch parties se tornaram o tipo de transmissão mais assistido no Brasil e tem ganhado o mundo cada vez mais. Enquanto este estilo de transmissão segue avançando nas plataformas de streaming, a tradicional narração ainda segue viva nos torneios internacionais, porém deixou de ser a prioridade em torneios menores.

O panorama para os narradores no CS tem ido de mal a pior, conforme atestam Vanessa "Nessy" Paccico, Bruno "Cobaia" Cabral e Iago "Wolfz" Matheus, profissionais que conversaram com a Dust2 Brasil e falaram da realidade da profissão no momento.

"As oportunidades são esporádicas. As mais frequentes são relacionadas às empresas para as quais já presto serviços há bastante tempo e, ainda assim, não são numerosas nem rentáveis a ponto de proporcionar um retorno estável que permita viver exclusivamente dessa ocupação", explicou Cobaia.
Wolfz deu números aproximados da comparação em relação às oportunidades de narração de 2025 para 2026.

"Olhando especificamente para o CS2, sinto que, neste ano, houve uma redução de aproximadamente 50% na quantidade de trabalhos em relação aos anos anteriores. Os torneios pequenos e médios praticamente desapareceram, então hoje temos menos campeonatos, mas eventos maiores e mais concentrados. Isso naturalmente reduz o número de oportunidades disponíveis para todo mundo que trabalha no mercado."

Uma das vozes da IEM Rio, Nessy reforçou que as oportunidades de narração estão escassas, porém ainda tem aberturas interessantes, como com as vindas da ESL para o Brasil.

"Porém, não acho que estas oportunidades sejam suficientes para que você viva só disso. Hoje em dia, você ser só narrador de CS, é impossível. Você tem que ter uma outra fonte de renda.

Você pode ser criador de conteúdo, você pode também fazer Watch Party, pode trabalhar como roteirista, como repórter. Mas você tem que ter outra coisa. Só como narrador, hoje, eu acho que não dá para manter com as oportunidades que a gente tem dentro do jogo, não", opinou.

Nessy busca ser otimista e aponta que, para 2027, pode acontecer o movimento inverso do que vem acontecendo e o público pode se tornar mais fã de assistir as transmissões com as narrações. No entanto, reforça a fase ruim.

"Se olharmos o panorama do ano retrasado para o ano passado e depois para esse ano,2026 com certeza foi o pior. Foi o ano com menos oportunidades de narração. E eu não falo isso só por mim, não. Falo isso como uma pessoa que tem muitos amigos na área de narração, que vê muita gente saindo, muita gente que parou. Então acho que vai piorar. Eu acho que o narrador hoje tem que se diversificar se ele quiser se manter nos esports. Tem sido muito difícil trabalhar só como narrador."

Leque de opções

Os três narradores ouvidos pela reportagem também estão em um consenso quando falam da necessidade de abrirem um leque de opções para terem uma renda na qual consigam viver, já que narrar somente CS não é mais a fonte de renda principal.

"Narração já foi minha principal fonte de renda, porém hoje não é mais. Graças a Deus, porque senão eu estaria falida, sendo muito sincera. Trabalho com criação de conteúdo, com roteiro, com análise, como apresentadora, então tenho outras fontes de renda. Se fosse só pela narração, eu provavelmente já teria largado. Mas, 99% de chance de eu ter largado esse ano mesmo", disse Nessy.

O discurso é o mesmo para Cobaia, porém ele também aponta outro dificultador.

"Nem mesmo em seus melhores momentos, narrar CS foi minha atividade principal. Durante alguns anos o cenário foi muito bom, mas o que se percebe, na prática, é a falta de controle de qualidade por parte de algumas organizadoras de eventos. Existe uma verdadeira ignorância por parte de algumas das pessoas que têm o poder de decidir como os eventos serão produzidos."

"Quando se coloca alguém que não entende do jogo para narrar, a experiência de quem assiste acaba sendo bastante prejudicada. Isso demonstra que o cenário ainda precisa se profissionalizar em diversos aspectos. Hoje parece haver muito mais preocupação em reduzir custos do que em entregar uma experiência de qualidade para o público. Muitas vezes, quem está tomando as decisões simplesmente não conhece o produto que precisa entregar."

"A baixa remuneração e a ausência de um controle de qualidade tornam o cenário pouco atrativo para quem poderia oferecer um trabalho mais técnico e diferenciado. O profissional qualificado acaba se afastando e abrindo espaço para o amador, reforçando a percepção de que a narração não vale a pena. E, se você estiver fora do eixo Sudeste, isso se torna ainda mais difícil", declarou.

Abrir esse leque de opções, no entanto, tem um ponto negativo para Cobaia.

"O que tem acontecido é que as pessoas que buscam se dedicar à narração acabam trabalhando em diversas modalidades. Isso transforma o narrador em um generalista, que dificilmente consegue desenvolver a mesma afinidade e identificação de um especialista que vive um único jogo."

"Com todo respeito a quem pensa diferente, consigo, por exemplo, trazer referências do CS desde 2002, tenho a experiência de ter jogado LANs virando a madrugada e de ter vivenciado as mais diversas situações dentro e fora do servidor. Um jogador de LoL que se aventure no CS para tentar sobreviver da narração nunca vai saber o que é isso, da mesma forma que eu também não conseguiria fazer o caminho inverso. Inclusive, já recusei convites para narrar outras modalidades justamente por isso."

Olhando para frente

Wolfz evita história triste e celebra o fato de ser um privilegiado por ainda poder trabalhar com algo que gosta. Com ofertas em queda na área, o narrador vê que narrar exclusivamente CS vai ficar ainda pior e apontou uma possível saída para a situação.

"É um mercado bastante pulverizado. Existem pessoas que vivem exclusivamente disso e outras que encaram a narração como uma renda complementar. Com muita gente disputando poucas oportunidades, o resultado é que boa parte dos profissionais acaba recebendo pouco. Para quem deseja continuar focado apenas no CS, acredito que o caminho seja construir uma marca pessoal e desenvolver algo além das transmissões tradicionais. O Cosiq e a TrisMara são bons exemplos: além de narradores, criaram suas próprias comunidades, canais e fontes de receita. Hoje, ser apenas a voz de uma transmissão talvez não seja mais suficiente. É preciso construir algo em torno disso."

Perguntada pela reportagem sobre qual pode ser o diferencial entrado pelos narradores para buscarem o público novamente, Nessy apontou problemas no formato.

"Eu não vejo isso como sendo responsabilidade do narrador. Eu acho que isso é uma responsabilidade do campeonato. E a gente não está tendo, hoje em dia, a iniciativa dos campeonatos de fazerem um formato super diferente, inovador, para atrair esse público. A maneira dos campeonatos atuais é mais robusto, com análise, comentarista… e esse formato precisa ser adaptado para tornar a coisa mais interessante."

"Precisa ter um conteúdo diversificado, que faça com que ele saia da zona de conforto dele de assistir nas watch parties que ele curte - e acho que não tem problema nenhum assistir lá, porém esse formato (de narração tradicional) precisa ter um diferencial para atrair esse público."

Assim como Nessy, Cobaia aponta que um estilo novo de transmissão é importante e tem uma referência clara em mente.

"Vejo que a CazéTV chegou a um equilíbrio que considero ideal: influenciadores, pessoas com conhecimento técnico, carisma, capacidade de comunicação e, principalmente, liberdade criativa para oferecer uma experiência diferenciada ao público. Acho que esse modelo poderia ser adaptado ao CS.Assistindo ao que aconteceu durante a Copa, é impossível não gostar desse movimento da CazéTV de reunir o melhor dos dois mundos."

"É o conteúdo e o entretenimento voltado para o torcedor — algo que o Gaules popularizou no CS —, somados à emoção de uma narração que valoriza o espetáculo e a atuação dos jogadores, como acontece nas boas transmissões tradicionais, além de uma análise técnica no nível da que o BIT apresentou em suas participações com o Gaules. Quando estou assistindo, sinto falta justamente dessa combinação de todos esses elementos."

"Essa mudança de percepção — de deixar de enxergar a narração como algo ultrapassado e voltar a entendê-la como um instrumento de informação, técnica, emoção e entretenimento só poderia acontecer, no curto prazo, por iniciativa do próprio Gaules, dada a sua força e a tensão que se criou entre seu formato e a narração tradicional ao longo dos anos e, no médio e longo prazo, pela MadHouse, que tem potencial para isso. No entanto, não acredito que exista esse interesse", acrescentou cobaia.

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